Publicado 2026-09-26 · 4 min de leitura
Quão Comum é, Afinal, a Síndrome do Impostor?
Uma revisão de 2020 com 62 estudos encontrou sentimentos de impostor em algo entre 9% e 82% das pessoas. Esse intervalo enorme diz menos sobre ti do que sobre a forma como se faz a pergunta.
No início dos anos 70, duas psicólogas em Atlanta, Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, ouviam repetidamente a mesma história de pessoas que não tinham motivo nenhum para a contar. Uma diretora de departamento que dizia que as suas capacidades tinham obviamente sido sobrestimadas. Uma mulher com doutoramento e uma lista de publicações que se sentia pouco qualificada para dar uma aula introdutória. Alunas convencidas de que a comissão de admissão se tinha enganado.
Em 1978 deram-lhe um nome: o fenómeno do impostor, que descreveram como uma experiência interior de fraude intelectual. Quase cinquenta anos depois, é uma das ideias mais conhecidas da psicologia popular. Essa popularidade trouxe uma pergunta que merece resposta cuidadosa: quão comum é, e o que é exatamente?
De onde veio a ideia
Clance e Imes não fizeram um inquérito. O artigo delas era um relato clínico. Ao longo de cinco anos tinham trabalhado, em terapia, em grupos e em aulas, com mais de 150 mulheres de grande sucesso: alunas e docentes de uma faculdade do Midwest, estudantes de pós-graduação e docentes de uma universidade do sul, estudantes de medicina e profissionais de direito, enfermagem, ensino e outras áreas. A maioria era branca, de classe média a alta, com idades entre os 20 e os 45 anos. Cerca de um terço eram clientes em terapia.
O que as unia era um desencontro estranho. Notas, diplomas, elogios e promoções não contavam como prova. O sucesso era atribuído à sorte, ao charme, ao esforço ou ao erro de alguém, e cada nova conquista aumentava o medo de um dia serem desmascaradas.
Há dois pormenores desse artigo que costumam ser esquecidos. Primeiro, as autoras escreveram que estas mulheres não cabiam numa única categoria de diagnóstico. Segundo, acreditavam, por impressão clínica, que a experiência era muito menos frequente e menos intensa nos homens. Esta segunda afirmação não foi confirmada pela investigação posterior.
O que encontrou uma revisão sistemática
Em 2020, uma equipa liderada por Dena Bravata publicou a primeira revisão sistemática da área no Journal of General Internal Medicine. Pesquisaram a investigação publicada entre 1966 e 2018 e encontraram 62 estudos com 14 161 participantes no total, metade publicados nos seis anos anteriores.
O número principal não é bem um número. Consoante o estudo, a percentagem de pessoas classificadas com sentimentos de impostor ia de 9% a 82%. Os autores explicaram porquê: os estudos usavam questionários diferentes e, sobretudo, pontos de corte diferentes. O sítio onde traças a linha entre "alguma insegurança" e "síndrome do impostor" decide quantas pessoas ficam do lado errado dela.
Outros resultados foram mais consistentes. Os sentimentos de impostor eram comuns em homens e mulheres, ao contrário da impressão original. Apareciam da adolescência ao fim da carreira. As taxas eram especialmente altas em alguns grupos de minorias étnicas. E surgiam muitas vezes juntamente com depressão e ansiedade, associados a burnout e a menor satisfação no trabalho.
A revisão também encontrou uma ausência. Até então, nenhum estudo publicado tinha testado um tratamento. Havia workshops, coaching e conselhos por todo o lado; provas controladas de que algum funcionasse, não.
O que isto significa e o que não significa
Vale a pena ser preciso, porque a versão popular desta ideia afastou-se da investigação.
- Não é um diagnóstico. Não vais encontrar a síndrome do impostor nos manuais de psiquiatria. Os investigadores usam a palavra "fenómeno" por um motivo: descreve um padrão de pensamentos e sentimentos, medido num contínuo, e não uma perturbação que se tem ou não se tem.
- As estimativas dependem da régua. Quando vires uma estatística única e confiante sobre quantas pessoas se sentem impostoras, pergunta que questionário e que ponto de corte a produziram. A resposta honesta é um intervalo, e largo.
- Comum não é o mesmo que inofensivo. As ligações à ansiedade, à depressão e ao burnout são correlações, por isso não dizem o que vem primeiro. Mas sugerem que, para algumas pessoas, isto é mais do que um nervoso passageiro antes de uma apresentação.
- As amostras têm limites. Muitos estudos usaram estudantes, médicos e outros profissionais em países de língua inglesa. Sabemos muito menos sobre pessoas fora desses contextos.
Convém também reparar que a revisão foi financiada por uma empresa de saúde que empregava a maioria dos autores, algo que o artigo declara abertamente. Isso não a torna errada, mas é o tipo de pormenor que um leitor honesto deve conhecer.
O que podes fazer com isto
Se te reconheces aqui, a investigação sugere algumas coisas concretas a considerar, e nenhuma exige um rótulo.
Primeiro, repara em como explicas os teus sucessos e fracassos. O núcleo da descrição original é uma assimetria: os bons resultados são atribuídos à sorte ou ao esforço, os maus à falta de capacidade. Escrever, depois de um sucesso, o que fizeste de facto para o conseguir pode tornar essa assimetria visível.
Segundo, separa o sentimento das provas. Sentires-te pouco qualificado e seres pouco qualificado são coisas diferentes. O nosso teste de síndrome do impostor mede a primeira, e o nosso teste de autoeficácia avalia a confiança que tens em lidar com desafios concretos, uma pergunta relacionada mas distinta.
Terceiro, olha para aquilo de que o medo te está a proteger. Os sentimentos de impostor andam muitas vezes perto do medo de falhar: se nunca assumes totalmente um sucesso, nunca tens de o defender. O teste de medo do fracasso deste site pode ajudar-te a pensar nessa ligação.
Por fim, lembra-te de que as provas sobre soluções são escassas. Se estes sentimentos forem persistentes, afetarem o teu sono ou o teu humor, ou vierem acompanhados de sinais de ansiedade ou depressão, vale a pena falar com um profissional qualificado em vez de confiar num questionário ou num artigo, incluindo este.
Fontes
- Clance, P. R., & Imes, S. A. (1978). The imposter phenomenon in high achieving women: Dynamics and therapeutic intervention. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 15(3), 241-247. doi:10.1037/h0086006
- Bravata, D. M., Watts, S. A., et al. (2020). Prevalence, predictors, and treatment of impostor syndrome: A systematic review. Journal of General Internal Medicine, 35(4), 1252-1275. doi:10.1007/s11606-019-05364-1
- Chrisman, S. M., Pieper, W. A., Clance, P. R., Holland, C. L., & Glickauf-Hughes, C. (1995). Validation of the Clance Imposter Phenomenon Scale. Journal of Personality Assessment, 65(3), 456-467. doi:10.1207/s15327752jpa6503_6