Publicado 2026-09-26 · 4 min de leitura
Ser Esquerdino: O Que a Investigação Mostra de Facto
Cerca de uma em cada dez pessoas é esquerdina, um número que se manteve notavelmente estável ao longo de séculos e culturas. A genética só explica parte disto, e a ligação à criatividade é mais fraca do que o folclore sugere.
Pinturas rupestres com dezenas de milhares de anos mostram impressões de mãos, e os investigadores que estudam o ângulo e a sobreposição dessas marcas argumentam que a maioria dos artistas era destra - numa proporção aproximadamente igual à que vemos hoje. Seja o que for a lateralidade manual, parece ser uma característica antiga e estável da nossa espécie, não um hábito moderno ou uma questão de educação.
Quão comum é, de facto, ser esquerdino
Em 2020, Marietta Papadatou-Pastou e colegas reuniram resultados de um número muito grande de estudos que abrangem mais de dois milhões de pessoas em todo o mundo, e produziram a estimativa mais completa disponível: a melhor cifra geral é que cerca de 10,6% das pessoas são esquerdinas, embora o número exato varie com o critério usado para definir lateralidade esquerda, desde cerca de 9,3% com o critério mais estrito até 18,1% com o mais permissivo. O número varia também por sexo (os homens são um pouco mais propensos a ser esquerdinos do que as mulheres), pelo método de medição, e modestamente entre regiões - mas o quadro geral é de consistência, e não de diferença dramática. Não é uma característica rara, e não tem vindo a tornar-se mais rara nem mais comum em nenhuma tendência clara, depois de se ter em conta a supressão histórica da escrita com a mão esquerda.
De onde vem: genes, mas não simples
A lateralidade manual corre em família, o que sugeria uma componente genética muito antes de alguém a conseguir procurar diretamente. Um estudo marcante de 2020, coordenado entre dezenas de grupos de investigação, fez um estudo de associação em todo o genoma - analisando o ADN de centenas de milhares de pessoas para encontrar variantes genéticas estatisticamente ligadas à lateralidade manual - e identificou 48 variantes genéticas comuns associadas a ela, várias delas próximas de genes envolvidos no desenvolvimento da estrutura cerebral e do citosqueleto, o andaime interno que ajuda as células (incluindo as células cerebrais em desenvolvimento) a assumir a sua forma e orientação.
O problema é o que esse número significa realmente na prática. Mesmo combinadas, essas 48 variantes explicavam apenas uma pequena parte da variação total da lateralidade manual entre pessoas, razão pela qual os investigadores descrevem a lateralidade manual como altamente poligénica - moldada por muitíssimos genes de pequeno efeito individual, e não por um punhado de genes decisivos. Estudos com gémeos idênticos, que partilham essencialmente todo o seu ADN, mostram que são ambos esquerdinos apenas um pouco mais frequentemente do que gémeos não idênticos, muito longe da concordância quase total que seria de esperar se a lateralidade manual estivesse maioritariamente escrita no genoma. O resumo honesto é que a genética inclina as probabilidades sem decidir o resultado: outra coisa, provavelmente envolvendo processos no útero, acontecimentos aleatórios durante o desenvolvimento cerebral, ou uma interação entre múltiplos pequenos efeitos genéticos, faz uma parte substancial do trabalho restante. Esta é uma área de investigação ativa e ainda não resolvida, não um caso encerrado.
Os mitos que não se sustentam
A lateralidade esquerda atraiu um conjunto de afirmações românticas - de que vem associada a maior criatividade, talento artístico mais afiado, génio pouco comum. A evidência para uma ligação robusta à criatividade em geral é ténue e inconsistente: alguns estudos encontraram pequenas vantagens em tarefas de criatividade específicas, particularmente as que envolvem pensamento divergente, mas o padrão não se replica de forma limpa em todo o campo, e grandes levantamentos de profissionais excecionalmente criativos não mostram taxas de esquerdinos dramaticamente diferentes das da população geral. Vale a pena lembrar que um estereótipo só precisa de alguns exemplos famosos para sobreviver a ser contrariado pela média.
Há um efeito real, ainda que modesto, em algumas tarefas espaciais e matemáticas em certos estudos, e os esquerdinos, como grupo, mostram alguma variação adicional em qual lado do cérebro processa a linguagem - a maioria das pessoas, esquerdinas ou destras, ainda processa a linguagem principalmente no lado esquerdo, mas uma minoria maior de esquerdinos processa-a de forma mais equilibrada entre os dois lados ou predominantemente no lado direito. Nada disto se soma a um perfil estável de personalidade ou talento; o quadro honesto é de pequenas diferenças de grupo inconsistentes, enterradas dentro de uma enorme variação individual.
A lateralidade manual também não é um traço tão único como a palavra sugere. A mesma meta-análise descobriu que a forma como os investigadores a definem e medem - que critério usam, quão estritos são a classificar alguém como esquerdino - altera a estimativa por um fator de quase dois, e uma fração significativa das pessoas mostra dominância mista, favorecendo a mão direita para algumas ações e a esquerda para outras, em vez de se situar claramente numa das pontas da escala. Os investigadores tratam geralmente a lateralidade manual como um contínuo com uma forte inclinação para um dos lados, e não como um binário estrito, o que é parte da razão pela qual diferentes estudos e diferentes questionários podem relatar números ligeiramente diferentes para o que parece ser o mesmo traço subjacente.
O que isto não significa
Nada disto faz da lateralidade manual uma janela para quem alguém é, e não é base para julgar capacidade, temperamento ou inteligência em qualquer direção. A maioria dos estudos por trás destes números são correlacionais e vêm sobretudo de populações ocidentais e de língua inglesa, e as descobertas de associação genética em particular descrevem tendências estatísticas em amostras enormes, não previsões sobre o cérebro de uma pessoa em concreto. Os esquerdinos enfrentaram, historicamente, custos práticos reais - ferramentas, mesas, tesouras e instrumentos desenhados por defeito para mãos direitas, e em algumas culturas desencorajamento ativo ou punição por escrever com a mão esquerda - e nada da biologia acima deve ser lido como minimizando isso.
O que isto significa para ti
Se és esquerdino, a investigação sugere que fazes parte de uma minoria estável, antiga e razoavelmente bem compreendida, não um caso especial de criatividade nem uma desadequação a corrigir. Se és destro e já assumiste que os esquerdinos na tua vida são os artísticos ou os distraídos, a evidência para esse padrão é consideravelmente mais fraca do que o estereótipo. O que varia mais do que a mão que alguém favorece é o que essa pessoa realmente faz com ela - e isso é uma questão de prática e interesse, não de que lado calhou num lançamento de moeda muito antigo.
Fontes
- Papadatou-Pastou, M., et al. (2020). Human handedness: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 146(6), 481-524. doi:10.1037/bul0000229
- Cuellar-Partida, G., et al. (2020). Genome-wide association study identifies 48 common genetic variants associated with handedness. Nature Human Behaviour, 5(1), 59-70. doi:10.1038/s41562-020-00956-y